A cera no ouvido (cerúmen) tem função de proteção: ela forra o canal auditivo, retém poeira e microrganismos e normalmente sai por conta própria, empurrada pelo movimento da mandíbula ao falar e mastigar. O problema começa quando alguém tenta “ajudar” esse processo com cotonete, grampo ou a ponta de uma toalha.
Por que o cotonete piora o problema
O canal auditivo tem formato de S e é curto — em adultos, cerca de 2,5 cm até o tímpano. Quando o cotonete entra, ele não remove a cera da entrada: empurra parte dela para o fundo, perto do tímpano, onde o corpo tem muito mais dificuldade de eliminá-la sozinho.
O resultado comum é o oposto do que a pessoa queria: em vez de limpar, ela compacta a cera contra a parede do canal, formando o que chamamos de tampão de cera (ou rolha). Some a isso outro risco real — a haste do cotonete pode arranhar a pele fina do canal ou, em movimentos bruscos, tocar o tímpano.
Outro ponto que passa batido: usar cotonete todo dia remove a camada de cera que protege a pele do canal contra umidade e atrito. Sem essa proteção, aumenta a chance de irritação e coceira — que muita gente tenta aliviar coçando mais com o próprio cotonete, fechando um ciclo que só piora.
Sinais de que pode haver tampão de cera
Alguns sintomas costumam aparecer quando o cerume se acumula e bloqueia parte do canal:
- Sensação de ouvido tampado ou de pressão
- Diminuição da audição de um lado
- Zumbido leve
- Coceira ou desconforto no canal
- Em alguns casos, uma sensação de eco na própria voz
Esses sinais não confirmam sozinhos que existe tampão — outras condições do ouvido médio ou externo podem causar sintomas parecidos. Por isso o diagnóstico depende de exame direto, com otoscópio, feito em consulta.
Como a remoção de cerume é feita no consultório
A primeira etapa é sempre a otoscopia: o médico observa o canal auditivo e o tímpano para confirmar se há de fato acúmulo de cera, se ela está mole ou endurecida, e se existe algum outro achado que mude a conduta.
A partir daí, a técnica escolhida varia conforme o caso:
Lavagem de ouvido (irrigação): usa um jato de água em temperatura controlada, direcionado para a parede do canal — nunca direto contra o tímpano — para soltar e arrastar a cera para fora. É indicada quando o tímpano está íntegro e não há histórico de perfuração ou cirurgia prévia no ouvido.
Aspiração: um aparelho de sucção remove a cera sob visão direta, geralmente com auxílio de microscópio ou lupa. É a opção preferida quando a cera está mais endurecida, quando há perfuração timpânica conhecida, ou quando a lavagem não é indicada.
Instrumentos específicos: curetas e pinças finas retiram fragmentos maiores de forma manual, sob visualização direta, principalmente quando o tampão está bem aderido à parede do canal.
Em alguns casos, o médico orienta o uso de produtos para amolecer a cera por alguns dias antes do procedimento, o que facilita a remoção e reduz o desconforto. Essa orientação é sempre individual — depende do tipo de cera, do histórico do ouvido e da resposta de cada pessoa, por isso não deve ser feita por conta própria sem avaliação.
Quando procurar avaliação
Se a sensação de ouvido tampado ou a queda de audição persistir por mais de alguns dias, se houver dor, secreção ou febre, ou se a pessoa já teve perfuração de tímpano ou cirurgia otológica, o caminho é agendar avaliação — não tentar resolver em casa com hastes flexíveis, água oxigenada caseira ou objetos pontiagudos.
O exame direto do canal é o que define se existe tampão, qual a melhor técnica de remoção e se há algum outro achado associado. Cada ouvido responde de um jeito, e isso só se confirma com avaliação presencial.
Se você sente o ouvido tampado, com zumbido ou queda de audição, fale comigo pelo WhatsApp e agende uma avaliação.
Dr. Fellipe Cunha — CRM-GO 16.147 · RQE 11